Trabalho digno, carreira no SUS e valorização profissional pautam seminário no 17º Farmapolis Brasil
A defesa de condições dignas de trabalho, a luta pelos pisos salariais nacionais, a redução da jornada de trabalho sem redução salarial, a construção da Carreira Interfederativa do SUS e o fortalecimento dos espaços de negociação coletiva estiveram no centro dos debates do seminário “Trabalho na Saúde: Jornada, Salário, Carreira e Ambiente”, realizado nesta quinta-feira (19) durante o 17º Farmapolis Brasil, em Florianópolis.
O seminário abordou os impactos das transformações econômicas, sociais, ambientais e tecnológicas sobre o mundo do trabalho, discutindo a precarização das relações de trabalho e a necessidade de ambientes laborais mais seguros e saudáveis.
A atividade reuniu a primeira vice-presidenta da Federação Nacional dos Farmacêuticos (Fenafar), Renata Gonçalves, a integrante da Mesa Diretora do Conselho Nacional de Saúde (CNS), Francisca Valda da Silva, e o representante do Departamento Intersindical de Estudos e Pesquisas de Saúde e dos Ambientes de Trabalho (DIESAT), Eduardo Bonfim da Silva.
Representando a Fenafar, Renata Gonçalves enfatizou a importância da participação ativa dos trabalhadores em suas próprias lutas. Segundo ela, um dos grandes desafios atuais é superar a ideia de que a defesa dos direitos pode ser delegada a terceiros. A dirigente sindical, destacou que a construção de avanços depende da capacidade de organização coletiva e da compreensão de que muitas pautas, mesmo quando não afetam diretamente determinado trabalhador, impactam milhares de outros profissionais.
Renata também relacionou a mobilização pelo fim da escala 6×1 às condições concretas enfrentadas pelos trabalhadores das farmácias e demais serviços de saúde. “O fortalecimento das lutas por melhores jornadas, salários dignos e condições adequadas de trabalho passa pelo engajamento dos próprios trabalhadores e pelo reconhecimento de que conquistas históricas somente foram alcançadas por meio da mobilização coletiva”, apontou.
Na sequência, Eduardo Bonfim da Silva, do DIESAT, chamou atenção para o avanço da precarização das relações de trabalho em todo o país. Segundo ele, a expansão da informalidade, da terceirização e da chamada “uberização” tem produzido um cenário de desumanização do trabalho, marcado pela perda de vínculos, insegurança e ampliação das desigualdades sociais.
Bonfim destacou que essas transformações atingem de forma mais intensa mulheres, jovens, população negra e trabalhadores submetidos a atividades mais precárias e insalubres. Também ressaltou que o debate sobre saúde do trabalhador precisa considerar os impactos das mudanças climáticas, das emergências sanitárias e das novas formas de organização do trabalho.
“Os espaços de participação social, os sindicatos, os conselhos de saúde e as conferências continuam sendo instrumentos fundamentais para formular respostas coletivas diante desses desafios”, disse.
Representante da Mesa Diretora do CNS, Francisca Valda da Silva, situou os desafios do trabalho em saúde em um contexto mais amplo de transformações sociais e econômicas. Segundo ela, os trabalhadores enfrentam um cenário de sucessivas perdas de direitos e de aprofundamento das desigualdades, o que exige uma atuação estratégica e articulada dos movimentos sociais e das entidades representativas.
Francisca destacou que a luta por trabalho digno deve ser entendida como uma luta coletiva das profissões da saúde e da classe trabalhadora como um todo. Para ela, não basta resistir aos retrocessos: “é necessário construir uma agenda capaz de promover mudanças estruturais nas relações entre Estado, mercado e sociedade”.
Nesse contexto, reforçou a importância da mobilização pela redução da jornada de trabalho, pelo fim da escala 6×1 e pela construção de carreiras que garantam estabilidade, valorização profissional e melhores condições para o exercício do trabalho em saúde.
Ao longo do seminário, os participantes também destacaram a importância da Carreira Interfederativa do SUS, recentemente aprovada como diretriz no âmbito da Mesa Nacional de Negociação Permanente do SUS (MNNP-SUS). A proposta é considerada um passo importante para a valorização dos profissionais da saúde, buscando reduzir desigualdades entre os entes federativos, fortalecer a fixação de trabalhadores nos serviços públicos e qualificar o atendimento à população.
Outro tema recorrente foi a defesa dos pisos salariais nacionais para as categorias da saúde, entre elas os farmacêuticos e farmacêuticas. Os debatedores apontaram que a valorização profissional depende da combinação entre remuneração adequada, jornada compatível, ambiente de trabalho seguro e oportunidades de desenvolvimento profissional.
Ao final, o seminário reforçou que a luta por melhores condições de trabalho não se restringe aos interesses das categorias profissionais. Trata-se de uma agenda estratégica para o fortalecimento do SUS e para a garantia de um atendimento de qualidade à população, sustentado por trabalhadores valorizados, protegidos e reconhecidos em sua importância social.
